Fleitas Solich: um dos maiores técnicos do Flamengo era paraguaio e fez história no Maracanã

Na volta do Paraguai ao maior palco do futebol brasileiro, recordamos as façanhas do “Feiticeiro”, tricampeão carioca com o Fla e treinador do primeiro título paraguaio da Copa América

Vocês bem vão concordar que é inevitável. Mas é que a seleção do Paraguai retornar ao Maracanã 30 anos depois, justamente no momento em que o Flamengo toma conta dos noticiários por anunciar um treinador estrangeiro, torna-se um convite para falarmos sobre o sujeito chamado Manuel Agustín Fleitas Solich.

Trata-se de um dos maiores treinadores da história do Flamengo, time que aposta as fichas da vez em Jorge Jesus – o português foi apresentado na última segunda-feira. Foi sob a batuta de Solich que o Rubro-Negro pôs fim a uma incômoda espera por títulos nos anos 50 e conquistou o tricampeonato carioca em 1953, 1954 e 1955. Ele também é até hoje o segundo técnico com mais jogos pelo clube: 504. Perde só para Flávio Costa, que tem 765.

Manuel Fleitas Solich, ex-treinador do Flamengo e da seleção paraguaia — Foto: Divulgação / Conmebol

Manuel Fleitas Solich, ex-treinador do Flamengo e da seleção paraguaia — Foto: Divulgação / Conmebol

No entanto, antes de encantar os flamenguistas com soluções que pareciam coelhos retirados da cartola e ganhar por conta disso a alcunha de “Feiticeiro”, o paraguaio falecido em 1984 fez suas mágicas com a seleção – como jogador e também como treinador.

A história começa aí.

Paraguai e Catar se enfrentam neste domingo, às 16h (de Brasília), pelo Grupo B. É a primeira vez da seleção paraguaia no Maracanã desde a derrota por 3 a 0 para o Brasil pela Copa América de 1989, gols de Bebeto (dois) e Romário.

10 Copas América no currículo

Fleitas Solich, nascido em Assunção, surgiu nas categorias de base do Nacional em meados de 1918. Dizem os relatos que a técnica e a elegância eram as credenciais do meia, que nos primeiros anos como profissional faturou duas vezes o Campeonato Paraguaio, em 1924 e 1926. Arsenio Erico, um dos maiores jogadores da história do Paraguai e companheiro de Solich no clube da capital, certa vez falou sobre a obsessão do amigo por vitórias: “Não gostava de perder nem nos treinamentos”.

Após viagem para a Argentina, numa dessas excursões que os clubes apreciavam fazer antigamente, o paraguaio tornou-se sonho de consumo do Boca Juniors. Até que, em 1928, época em que o futebol argentino engatinhava no que diz respeito à profissionalização, os xeneizes acertaram a transferência do jogador. Sagrou-se bicampeão argentino, em 1930 e 1931. Na terra do tango, também passou por Racing, Platense, Talleres e Argentinos Juniors.

Fleitas Solich (o segundo da esquerda para a direita), capitão do Paraguai na Copa América de 1924 — Foto: Divulgação / Conmebol

Fleitas Solich (o segundo da esquerda para a direita), capitão do Paraguai na Copa América de 1924 — Foto: Divulgação / Conmebol

Solich estreou na seleção paraguaia aos 18 anos. Tinha um senso de liderança de dar gosto, tanto é que se tornou capitão num piscar de olhos e, aos 21, passou também a acumular a função de treinador. Assim, ele disputou cinco edições da Copa América, sendo o vice em 1922 a campanha de maior relevância. No entanto, Solich deixou o time do Paraguai em 1926 e perdeu a oportunidade de jogar, por exemplo, a primeira de todas as Copas do Mundo quatro anos depois.

Uma vez com as chuteiras penduradas, e apesar do prestígio no futebol paraguaio, foi despontar como treinador na Argentina. Comandou dentre outros Lanús, Newell’s Old Boys, Quilmes, e Talleres; e adquiriu nesse tempo a fama de evitar rebaixamentos. Acontece que Fleitas Solich estava fadado a bem mais, e foi aí que ele aceitou comandar a seleção do seu país.

Na verdade, o apego pelo trabalho a longo prazo não era o forte de Solich, de modo que ele ia e voltava das equipes num ritmo frenético. Foram várias passagens pelo Paraguai, com mais cinco Copas América na conta – 10 no total, se levarmos em conta as que ele participou como jogador, portanto. A mais memorável delas em 1953, quando, já acertado com o Flamengo, impôs a condição de que só iria para a Gávea ao fim da competição continental.

Notícia do "Jornal do Sports" de 1953 relata o acerto de Solich com o Flamengo — Foto: Arquivo / Jornal dos Sports

Notícia do “Jornal do Sports” de 1953 relata o acerto de Solich com o Flamengo — Foto: Arquivo / Jornal dos Sports

Azar o nosso, pois Solich conduziu a equipe até a final contra o Brasil de Nilton Santos, Ademir, Baltazar e Zizinho; e venceu por 3 a 2, dando ao Paraguai o primeiro de seus dois únicos títulos de Copa América na história.

O Feiticeiro da Gávea

Fleitas Solich chegou ao Flamengo em março de 1953. Naquela ocasião, agoniado com o jejum de nove anos sem um título sequer, o Rubro-Negro tentava tapar o buraco que ali existia desde a saída de Flávio Costa. Jaime de Almeida ocupava o cargo interinamente e passou a ser auxiliar com a chegada do paraguaio. O filho, que foi campeão da Copa do Brasil em 2013, se lembra de algumas histórias do pai. “O Solich era muito profissional e se dava bem com o meu pai, que sempre falou sobre ele com muito carinho”, contou ao GloboEsporte.com.

A alcunha de “El Brujo” o acompanhava desde os tempos de jogador, basicamente em função das jogadas que pareciam impossíveis dentro de campo; e acabou sendo endossada com a experiência como técnico, quando volta e meia encontrava soluções como uma carta na manga. Uma tradução simples transformou o rapaz no Feiticeiro da Gávea, portanto.

Segundo testemunhas, o primeiro grande feitiço de Solich no Fla aconteceu em outubro, durante o Campeonato Carioca. O time perdia por 1 a 0 para o Olaria do técnico Domingos da Guia na Rua Bariri. Diante de tamanha inofensividade, os torcedores pareciam conformados com a derrota. Afinal de contas, o paraguaio havia realizado todas as substituições. O que mais poderia ser feito? Foi então que ele decidiu mexeu as peças do ataque: Esquerdinha, ponta na canhota, foi para a direita; Joel, que caía pela direita, virou centroavante; e o então homem de referência Índio foi deslocado para a meia-direita. O Flamengo conseguiu três gols nos últimos 10 minutos e abriu o caminho para o título daquele ano.

Em seguida, fez do Maracanã a sua casa e conquistou também os Cariocas de 1954 e 1955, o segundo tricampeonato da história do Flamengo. Dizem, no entanto, que era vencedor e linha dura na mesma medida.

“Amarildo foi mandado embora pelo Fleitas por causa de um cigarro”, contou uma vez Dida, ídolo do Flamengo, sobre o episódio que culminou com a saída de outra lenda. “Amarildo fumou propositalmente na frente dele, e o Fleitas não aceitou mais.”

Dida, no início de carreira no Flamengo, foi treinado por Fleitas Solich — Foto: Arquivo / Museu dos Esportes

Dida, no início de carreira no Flamengo, foi treinado por Fleitas Solich — Foto: Arquivo / Museu dos Esportes

Como havia sido até ali, Solich não sossegou no comando do Rubro-Negro. Na primeira vez, não teve quem o condenasse, pois saiu do clube para assumir o Real Madrid de Di Stefano e Puskás, embora a aventura por terras espanholas não tenha durado muito tempo. Voltou ao clube carioca para faturar o Torneio Rio-São Paulo de 1961. Daí, rodou por Corinthians, Fluminense, Palmeiras, Atlético-MG, Bahia e só reencontrou o Flamengo 10 anos depois, em 1971.

Já um coroa, retornou à equipe aparentemente apenas para se despedir, visto que se aposentou após 39 jogos. Porém, não antes de puxar para os profissionais um garoto franzino que pedia passagem nas categorias de base. Os olhos de quem revelou Evaristo de Macedo e Zagallo permitiram ao paraguaio enxergar a técnica promissora do garoto que ele pegou no braço e bancou no time principal.

Era Zico.

Fonte: GloboEsporte